“Os Três Príncipes de Serendip” ou “Serendipidade”

Serendipity“Mutações”, disse eu num curso sobre tecnologia que ministrei recentemente, “são a maneira da natureza testar novas ideias. A maioria são péssimas ideias, como fazer nascer um gato com um olho só. Essas ideias não vingam. Mas de vez em quando, uma dessas ideias loucas dá certo – tais como, sei lá, fazer um peixe respirar ar. Num sentido muito literal, essas ideias vivem para sempre.”

Aqueles alunos devem achar até hoje que sou um aficionado por X-Men, mas estudar mutações fornece insights valiosos sobre a natureza das ideias humanas. Visto que esse blog já trouxe dois textos sobre mutações, acho justo completar a trilogia no melhor estilo livro-de-aeroporto e explicar como um pouco mais de serendipidade pode ser o tempero que está faltando na salada da sua vida.

Horace Walpole teria cunhado o termo serendipidade a partir de uma fábula oriental chamada Os Três Príncipes de Serendip (Serendip é o nome persa para o Sri Lanka). Nessa historinha, três sábios príncipes viajantes utilizam sua sagacidade para realizar descobertas largamente irrelevantes. Eles deduzem, por exemplo, que um camelo caolho havia passado por um caminho observando que a grama só estava comida num lado da estrada. Walpole pensou no termo, portanto, para designar a descoberta de coisas pelas quais não se estava procurando – como Cristóvão Colombo descobrindo a América porque achava que dar a volta ao mundo era um atalho para a Índia.

fortune-cookie-2

Na minha observação, todas as coisas importantes acontecem por acaso (ou providência divina – em termos práticos, o resultado é o mesmo). Você pode se preparar, se calçar, cobrir as bases, fazer currículo, mas o universo é um chef caprichoso que gosta de usar receitas próprias. Se você se pega com frequência usando frases como “eu tava no lugar certo na hora certa” ou “eu já tinha até desistido quando me ligaram”, é sinal de que você entrou na cozinha de um gourmet que põe o azeite certo em saladas tortas.

Não dá pra lutar contra esse fanfarrão – o máximo que você pode fazer é tirar proveito dele. Você pode facilitar a serendipidade. Então, quando estiver procurando um emprego novo, se inscreva num curso qualquer ou vá a uma festa que você não iria – o amigo do primo do seu futuro chefe pode estar lá. Se quiser trocar de namorada(o), pegue um ônibus que não pegaria, ou veja um filme qualquer no cinema só por assistir – os deuses do romance ou as leis da probabilidade vão acabar sentando Romeu ao lado de Julieta.

Você vai encher a sua casa de gatos com um olho só, mas logo quando tiver desistido, vai aparecer um peixe que vira sapo – e um sapo que vira príncipe.

4 Respostas

  1. [...] O  mundo está mais perto de um videogame bugado do que filme vencedor de Oscar. Até as manchetes das nossas vidas – vitórias profissionais, sucessos em relacionamentos – são escritas em linhas tão tortas que nunca sabemos prevê-las. Acidentes acontecem como regra, não exceção, e a coisa mais esperta a fazer é aumentar nossa exposição a acidentes positivos. A isso chamam de serendipidade. [...]

  2. Pelo que vi dos comentários sobre o livro acima, parece ser um estudo sociológico sobre a estória dos 3 príncipes e não o conto dos 3 príncipes de Serendipe. É isto mesmo?

    Tenho interesse em ler o conto, mas não o encontro nas livrarias. Alguma sugestão?

    Obrigada.

  3. Josi,

    Robert K. Merton foi um sociólogo de certo renome, mas seu livro ‘The Travels and Adventures of Serendipity’ é mais voltado para o surgimento e transformações da palavra ’serendipíty’ ao longo da história. Merton era fascinado por novos termos – ele inventou as expressões ’self-fulfilling prophecy’ e ‘role model’, por exemplo.

    Você pode ler o conto original em http://livingheritage.org/three_princes.htm e http://livingheritage.org/three_princes-2.htm. Na verdade, esses links trazem o relato de um escritor chamado Richard Boyle sobre como Horace Walpole teria cunhado o termo ’serendipity’ – mas no meio dessa história, você encontrará o conto original quase inteiro (se souber se virar em inglês).

  4. [...] existência – ele vivia para se vingar do velho. Quando o pai morreu, sua vida esvaziou-se de significado. O professor havia contado essa história para advertir Heydrich – se os nazistas tornassem o [...]

Deixe uma resposta