“Prison Break” ou “Nós”

PrisonBreak_logoEm 2001, um filme chamado Conspiração foi lançado pela HBO. De roteiro sólido, Conspiração mostra o que se passou durante a Conferência de Wannsee, onde os altos oficiais nazistas decidiram exterminar o povo judeu. No meio do filme, um professor que se opõe à ’solução final’ aborda Reinhard Heydrich (Chefe de Segurança do Reich) e lhe conta uma história.

Havia um rapaz – diz o professor – que detestava seu pai. O pai havia lhe maltratado a vida inteira, tanto moral quanto fisicamente. Por conta disso, o rapaz odiava o pai com todas as suas forças. Quando o pai morreu, todos esperavam que o rapaz fosse ficar feliz. Mas aconteceu o contrário – ele ficou triste por muito tempo.

Adolf Eichmann também ouve a história, mas não entende sua moral. Cabe a Heydrich lhe explicar. O rapaz da história odiava tanto seu pai que sua raiva havia preenchido todos os aspectos de sua existência – ele vivia para se vingar do velho. Quando o pai morreu, sua vida esvaziou-se de significado. O professor havia contado essa história para advertir Heydrich – se os nazistas tornassem o extermínio dos judeus a sua razão de viver, sua existência perderia o propósito quando os judeus se fossem.

Já ouvi minha parcela de críticas sobre a série Prison Break (com destaque para o fato dos protagonistas passarem a segunda temporada inteira fora da prisão). Tem gente que acha inverossímil, por exemplo, que personagens que tentaram se matar nos primeiros episódios estejam se ajudando nos últimos – alguns até exibem sinais de afeto. Eu não acho esse retrato inverossímil. Na verdade, nada poderia ser mais humano.

Os laços que nos unem são estranhos. Do meu passado distante, as pessoas de quem sinto mais saudades são aquelas que odiei. O pivete no ônibus, o professor de Matemática, o garoto brigão da minha classe. Não é uma saudade do tipo ‘ih vou ligar praquele cara em Bangu II pra agitar um chope’, e sim algo mais parecido com gratidão.

Faca na tomada

Qualquer força que eu tenha criado eu devo à passagem dessas figuras pela minha vida. Hoje eu só consigo lidar com chefes destrutivos porque aquele professor me suspendeu na terceira série. Só sei me defender contra inimigos implacáveis porque aquele bully me ensinou a revidar. E só aprendi a aceitar perdas irreversíveis porque o pivete levou meu relógio do Mickey.

Quando passamos por emoções extremas – seja amor ou ódio – acho que somos nós mesmos por um piscar de olhos. E as pessoas que nos permitiram isso ficam marcadas na retina da nossa alma.  Suspeito que essa seja a raiz da Síndrome de Estocolmo (quando um sequestrado desenvolve afeto por seu algoz), da empatia sentida por homens depois que saem na porrada (ou, no meu caso, depois de um debate em voz alta) ou até pela amizade improvável entre ex-rivais de um reality show (com certa preferência para aquele que ganhou os cinco milhões de  dólares). É o que faz os personagens de séries e mangás se infernizarem na primeira temporada e virarem amigos na terceira.

Corrijo o que escrevi na metade desse texto. Os laços que nos unem não são estranhos – laços são os vínculos que sentimos por um porteiro simpático ou um amigo de academia. Um laço, para ser firme, deve se tornar um . E nós são para sempre.

5 Respostas

  1. [...] vai encher a sua casa de gatos com um olho só, mas logo quando tiver desistido, vai aparecer um peixe que vira sapo – e um sapo que [...]

  2. Interessantíssimo!
    Achei que coisas como essas fossem inexplicáveis, mas acabo de ler aqui exemplos mais do que claros pra compreender essa idéia. É como aquela frase mais ou menos assim: “Só existem duas tragédias na vida, uma é não conseguir o que você deseja, a outra é conseguir!”

  3. [...] ou “Dia de Zumbi” Enquanto eu morava na Flórida em 2003, conheci um menininho peculiar. Seu nome era Brody, e era muito inteligente. Só tinha uma [...]

  4. Ai!
    Será q vc é sábio pq sofre muito ou sofre muito pq é sabio, heim?
    Existe “alma usada”, “de segunda mão”, “alma velha”, “old soul”?
    Se existe, me reserva uma prá próxima vida?
    Chega de ser alma zerada. A gente pena e os outros saboreiam a volta!
    I’ll be back,
    but just for fun!

  5. Quantos enigmas!
    Essa página parece o blog da Esfinge ;)
    bjs!

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