“Fixing My Gaze” ou “Pró-Agnóstico”

FixingMyGazeSusan Barry via o mundo em 2D. Ela sabia que um objeto estava mais próximo quando este tapava um outro, ou quando simplesmente parecia ser maior – fora isso, Susan vivia de frente para um imenso cartaz. Segundo os médicos, um estrabismo que ela sofrera aos 3 anos havia mexido com seu senso de profundidade. Susan deduziu que todas as pessoas enxergavam assim, e só foi descobrir sua condição numa aula de neurologia durante a faculdade.

O prognóstico de Susan era ver em 2D para sempre.

Quem me vê bordando trocadilhos acha que sou o gato mais popular da praça. Mas minha vida social está ficando difícil. As pessoas fizeram um acordo tácito para falar de assuntos dos quais estou inteiramente à margem. Antes era só cidadania e atualidades, mas agora… parece que encontraram a plantinha onde eu derramei tudo de ruim durante a festa da minha vida.

Religion

E tem um pé de religião crescendo nela. Contrário à crença popular, eu tenho poucas convicções. Salvo uma afetação por epicidade, o fervor religioso é alienígena para mim. Então quando me perguntam “o que eu sou”, sou forçado a responder um anti-climático “não ligo muito para religião”.

Daí eu descobri que até não sendo nada eu já sou alguma coisa, e não escrevo isso no sentido Hebe-vai-ao-Tibete da questão. Agnóstico é o título daqueles que sabem que não sabem. Abraçar essa palavra resolveu pouco – eu logo veria que defender o agnosticismo nega sua própria natureza. Aliás, o agnóstico desatento está sempre em vias de ser meta-excomungado. Decidi que o melhor truque era responder com um silêncio de Buda sepulcral.

Mas antes de me dar santuário longe desse fogo-cruzado, permitam a um jovem teófobo declamar seu pro-agnóstico. Susan Barry passou a mocidade enxergando em duas dimensões. Ainda que fosse um broto sagaz, ela era incapaz de conceber a terceira dimensão – na mesma medida em que um peixe é incapaz de conceber o ar (entre outras coisas), ou que um plano é incapaz de conceber um cubo (e existem planos brilhantes por aí). Susan não compreendia a terceira dimensão porque nunca a havia vivenciado.

CubosDivindade é o que transcende a humanidade, diz o Bom Livro (que é a Bíblia,  e não o dicionário). Descrever algo intrinsecamente além da nossa vivência é como desenhar um cubo num papel – é válido quando se está papeando ao telefone ou renovando carteira de motorista, mas não resolve o imbróglio em debate.

Da próxima vez que perguntarem o que sou, vou imitar o meu ex-porteiro e dizer que “prefiro ser uma toxoplasmose ambulante do que ter opinião formada sobre tudo” (o tipo de frase que a Super Gêmea diria para sorrateiramente virar um gato).

Epílogo – Através de exercícios oculares, Susan Barry aprendeu a enxergar em 3D. “Fixing My Gaze” conta sua história.

2 Respostas

  1. [...] ainda denuncio padrões como no Santo Agostinho, Cristina. Mas a sensação gostosa de estar fora da janela [...]

  2. Ah! A libertação que só janela proporciona!

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